Como preparar um master adequado para o vinil?

Cada vez mais, eu tenho recebido aqui na Classic Master, projetos para serem masterizados originalmente para lançamento em Vinil e somente depois, para Download, Stream e CD.

Foi o caso do novo projeto da Roberta Sá “Delirio”, que eu masterizei no ano passado junto com o Produtor Rodrigo Capello.

“Delírio”Roberta Sá

Nesse projeto, a master do vinil foi feita com um pouco menos agudo, com os sub graves mais controlados e também com um pouco mais de dinâmica do que a master do CD e iTunes.

Outro exemplo foi a remasterização do disco do Sexteto do Beco dos tapes originais em 1/4 de polegada com lançamento somente em Vinil e o disco “Coisas”do Moacir Santos, também remasterizado dos tapes originais em 1/4 de polegada com lançamento somente para vinil.

Muitos clientes me pedem simplesmente para “dividir” a master do CD ao meio e enviar uma cópia a fábrica de discos de vinil. Acontece que não é simples assim.

Eu tenho recebido muitos emails com dúvidas sobre esse processo, principalmente em como preparar uma matriz especificamente para o corte do Vinil.

Pensando nisso, conversei com alguns amigos técnicos de Corte de Vinil e cheguei a algumas informações que eu achei serem bem úteis para que você possa chegar ao melhor resultado possível na hora de fazer uma master para o seu projeto na versão em vinil.

Sexteto do Beco

“Coisas”Moacir Santos

Você deve ficar bem atento a esses pontos antes de preparar a sua master final para enviar ao corte. Seguindo estas instruções, você vai assegurar que o corte seja feito dentro das especificações e limitações técnicas do processo de corte e fabricação dos discos de Vinil, assegurando a maior fidelidade do produto final.

Se o objetivo final do seu projeto não é só a gravação do seu disco para distribuição pela internet em MP3 e em CD, mas também em discos de Vinil, tenha em mente que seu projeto terá que passar necessariamente por um longo caminho e um bom número de operações analógicas e tecnicamente restritas antes dos seus fãs poderem ouvir e curtir seus discos em casa, processo esse bem diferente do ambiente digital que estamos bem mais acostumados onde tudo se resolve com muita rapidez.

Todo este caminho tem várias limitações e restrições. Esse limites são determinados pelo resultado das leis físicas, como o atrito e não há como ignorá-los ou superá-los e sim respeitá-los!. Eu tenho certeza que você deseja que o resultado do seu trabalho passe por este caminho sem sofrer qualquer arranhão, não é mesmo?

Resumindo, a situação é semelhante à situação de um ferroviário, quem tem que carregar as mercadorias nos vagões levando em conta que o vagão irá passar debaixo de uma ponte, por um túnel e não pode exceder a capacidade de carga das pontes e do trilhos, ao mesmo tempo que a capacidade de carga do vagão deve ser usado o máximo possível.

Vale a pena esclarecer  que para ser  possível gravar  áudio com resposta de de 20 Hz a 20 kHz em um disco de vinil foi padronizada uma curva de “ênfase/deênfase” conhecida como curva RIAA . Resumindo, essa curva atenua os graves e “amplifica” os agudos em relação a uma referência de 1 kHz. O uso dessa curva permite que se atinja dois objetivos, manter os sulcos no disco dentro de um tamanho padrão pois senão os sulcos devido aos graves seriam muito grandes, reduzindo o tempo de reprodução e dificultando a leitura e  atenuar os ruídos de alta frequência gerados pelo contato da agulha na superfície do disco.

Assim, se ligarmos um toca-discos diretamente a entrada de um amplificador vão existir frequências que serão atenuadas ou reforçadas indevidamente. Para corrigir este problema e fazer com que a gravação fique próxima da forma original como foi gravada, é preciso passar por um circuito denominado equalizador RIAA.

Vamos as dicas então:

1. Tente não ultrapassar o limite máximo de tempo recomendado para cada lado, (22 minutos no máximo, mas o ideal é 18 Mins) pois isso levará a uma diminuição drástica do nível de gravação e dinâmica. Por outro lado, as exigências de níveis de gravação extremamente altas diminuem o tempo disponível de cada lado. Nesse caso, mais é menos!

2. Tente colocar as músicas com mais pressão e nível no início e não no final do vinil. Deixe os finais para músicas mais leves como “voz e violão” por exemplo. As condições para a gravação e posterior reprodução dos discos de vinil pioram com o diâmetro decrescente para o meio do vinil (o selo).

3. Tente evitar o uso de processadores psico–acústicos para um grau excessivo como processadores que “abrem” o Stereo.

4. Se possível, verifique o resultado da master usando um medidor de correlação de fase (que não deve ser drasticamente no campo vermelho ou que tenham valores negativos) e um analisador de espectro de freqüência para garantir que o sinal não contenha elementos exageradamente fortes na faixa de freqüência baixa (em torno de 20 Hz e abaixo) e também na faixa de frequência alta (em torno de 16kHz e acima).

5. Filtre todos os sinais inaudíveis para evitar possíveis problemas durante a gravação e reprodução, por exemplo, sinais subgraves abaixo de 20 Hz (melhor ainda abaixo de 40 Hz) e altas freqüências acima de 16 kHz. No pior cenário, onde a música tem características tão críticas que possam prejudicar a cabeça de corte, a sua master provavelmente será recusada pela fábrica.

6. As freqüências mais baixas que estão abaixo de 300 Hz tem que estar em fase. Se não estiver, aplique um Equalizador elíptico. Esses equalizadores, integram os lados L e R em môno abaixo de uma certa frequência como 120 hz ou 200 hz. Se isso não for possível, faça uma ou peça uma nova mixagem corrigindo isso.

7. Atualmente, os clientes exigem o nível mais alto possível em seus projetos, mas você deve levar em conta a característica e o estilo da gravação existente com respeito às propriedades específicas da gravação mecânica. Como eu disse, as exigências de níveis de gravação extremamente altas diminuem o tempo disponível de cada lado.

Se o nível da sua master for tolerado pelos valores limites do toca discos e pelo tempo total de gravação, então pode ser possível a pedido do cliente (principalmente DJ ou bandas de rock e heavy-metal), utilizar um nível mais elevado no corte, porém, pode haver um prejuízo sonoro com distorção ou a estabilidade dos agudos durante o processo de reprodução nos toca discos.

8. Lembre-se que os resultados da boa reprodução do seu projeto em discos de vinil vai depender da qualidade, das condições técnicas e do ajuste correto do Toca Discos do ouvinte (A qualidade do Pré , a agulha, o nível de atrito, a limpeza da agulha e do ajuste da força vertical e anti-patinagem).

9. Verifique cuidadosamente se os dados sobre o álbum enviando um label completo com os nomes de todas as faixas ( incluindo os ocultos e faixas bônus) os tempos individuais e a separação em um lado A e lado B e o tempo total de cada lado, assim quaisquer efeitos especiais ou anomalias que correspondem com o master, o rótulo e a arte de capa. Procure sempre equilibrar o tempo dos dois lados, assim você não terá diferença no corte nos lados em consequência do tempo.

10. Se você precisar de ajustes adicionais no corte, ou algum tipo de equalização ou processamento que não foi possível fazer na masterização (como o uso de filtros elípticos),  especifique exatamente o seu pedido no formulário de ordem de serviço e observe o que está no master e que precisa ser feito no corte para o produto final .

11. Em caso de dúvida, nunca deixe de entrar em contato com o técnico de corte. Ligue para ele, mande um email, pergunte, questione! não deixe as suas perguntas sem resposta. Ele é seu maior aliado nessa etapa!

12. Não use a mesma masterização do CD e Download para o Vinil. Deixe um pouco mais de dinâmica, controle os graves e excessos de agudos e você vai se surpreender com o resultado final ao ouvir seu disco de Vinil.

Todas essas informações devem ajudá-lo a evitar os problemas mais comum que ocorrem durante o processo de corte do acetato e na fabricação dos discos de Vinil.

No entanto, são dicas e em nenhum caso podem substituir os livros didáticos com especificações técnicas precisas contidas nas literaturas técnicas que abordam a teoria da mecânica de gravação de som, a tecnologia de gravação e principalmente, a experiência do técnico de corte de acetato.

GLENDA GIRALDI
Atendimento e Marketing

Glenda Giraldi Soila, graduada em produção fonográfica e pós graduada em Music Business pela Universidade Anhembi Morumbi (Sao Paulo, Brasil) e formada em Pro Tools pela Avid Brasil.

Trabalhou como técnica de audio no Teatro da Rotina, por onde passaram grandes nomes da música independente, como Na Ozzetti e Ceumar.

Atualmente cuida das relações públicas da Classic Master Brasil, onde já participou de projetos como Ivete Sangalo, Victor e Leo, Lenine e Chico César e foi responsável por todo o acervo de áudio desde a fundação do estudio.

CARINA RENÓ
Assistente de Masterização (Classic Master Brasil)

Graduada em Propaganda & Marketing pela UNIP e com formação em Produção de Áudio na Academia de Áudio OMID, atualmente cursa Educomunicação na ECA-USP.

Atuou por 7 anos, na produtora Trilha Original Estúdio, adquirindo experiência com produção de áudio para publicidade, teatro, cinema e tv, atendendo programas como Instrumental Sesc Brasil, Super Libris e Sala de Cinema, longas-metragens como Florbela e O Amuleto e espetáculos das cias de teatro Le Plat Du Jour e Pia Fraus.

Desde 2015 é parte da Classic Master nas áreas de atendimento e como assistente do engenheiro de masterização Carlos Freitas colaborou com projetos como Chico César – Estado de Poesia Ao Vivo, Ivete Sangalo – ao Vivo Em Trancoso, Lenine – Em Trânsito, 5 a Seco – Síntese, Banda Mais Bonita Da Cidade – De Cima do Mundo Eu Vi O Tempo, Maria Beraldo – Cavala, Pato Fu – Música de Brinquedo 2, Clara Castro – Caostrofobia, Julia Branco – Soltar Os Cavalos, Paulinho Moska – Beleza e Medo, Cólera – Acorde! Acorde! Acorde!, Luiz Melodia – Zerima e João Bosco – Mano Que Zuera.

NATALIA HERRERA
Ass. de Masterização (Classic Master Latino América)

Natalia Bohórquez Herrera, formada em produção musical e fonográfica da Universidade Anhembi Morumbi (Sao Paulo, Brasil), e como DJ e Produtora pela escola DNA Music (Bogotá, Colombia),  complementou seus estudos na área de Masterização na Berklee School of Music.

Na sua carreira tem trabalhado como assistente de edição e mastering em projetos de artistas nacionais e internacionais, como Carlinhos Brown, Ivete Sangalo, Djavan, Paralamas do Sucesso, Barbatuques, Arnaldo Antunes, Jota-Quest, Lenine, Richard Lane, Buendia, Angela Cervantes, Marinah, entre outros.

Radicada atualmente na cidade de Bogotá, continua trabalhando como assistente de masterização da Classic Master SP e  é representante oficial para Classic Master Latinoamérica.

CARINA RENÓ
Assistente de Masterização
CARLOS FREITAS
Engenheiro de Masterização

Carlos Freitas é engenheiro de áudio há 33 anos e proprietário do estúdio de masterização Classic Master localizado em São Paulo.

Estudou na Berklee School of Music e na Faculdade Casper Líbero. Ao longo de sua carreira trabalhou com grandes artistas nacionais e internacionais, tais como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Toquinho, Tom Jobim, Milton Nascimento, João Gilberto, Roberto Carlos, Djavan, Ed Mota, Marisa Monte, Carlinhos Brown, Arnaldo Antunes, Luciana Souza, Céu, Ivete Sangalo, J-Quest, Titãs, Ira!, RPM, Paralamas do Sucesso, Lulu Santos, Zélia Duncan, Maria Rita, Lenine, Aline Barros, Bon Jovi, Alice in Chains, Seal, Prince, Guns n Roses, Simple Red, George Michael, Filarmonicas de NY , Leningrado, Moscou e Israel, OSESP entre tantos outros nomes.

Em 2016, participou das Olimpiadas do Rio de Janeiro masterizando todo o áudio utilizado na cerimónia de encerramento para a transmissão em televisão e também para a apresentação no Maracanã.

Possui 8 indicações ao Grammy Latino na categoria “Engenharia de Audio” nos anos de 2006, 2009, 2011, 2012, 2013 e 2016 e diversos trabalhos indicados e premiados pelo Grammy e Grammy Latino e, nos anos de 2000, 2002 e 2011, recebeu o prêmio PA promovido por Otavio Brito de “Melhor Profissional de Masterização” e em 2016 e 2017, recebeu o prêmio “Profissionais da Música” na categoria melhor engenheiro de masterização.