Meus objetivos na masterização de um projeto

Minha meta na masterização:
 
– Fazer o melhor som possível respeitando a estética sonora de cada projeto, sendo uma canção ou um álbum!
 
Minha perspectiva de masterização:
 
– Colocar os vocais em uma perspectiva realmente boa,
– Cuidar bem do conteúdo de graves e do Punch,
– Ajustar o equilíbrio de frequências de forma precisa.
 
A minha meta do volume final da master:
Respeitar os parâmetros de normalização de áudio de acordo com as especificações de cada mídia.
 
Master For vinil: -16dB – 1.0 dB TP
Master for For CD: -12LU -0.3 dB TP
Master For iTunes iMusic: -16LU -0.5 dB TP
For Spotify: -14LU -1 dB TP
Master for YouTube: -13LU -1dB TP
Master for TV: -23LU – 2.0 dB TP

Workshop Carlos Freitas – Conaprom “Masterização Conceito e Aplicações”

Olá amigos,

A 2 anos atrás, eu fiz um workshop de masterização para a Conaprom e eu dividi em 8 videos, cada um com um tema.

Aqui estão eles:

Entre e Ouça – Ed Motta

A Primeira vez que eu trabalhei com o Ed Motta foi na masterização do CD “As Segundas Intenções do Manual Prático” em 2001, durante o primeiro ano de funcionamento da Classic Master, onde eu tive a oportunidade de conhecer bem os seus métodos de trabalho e principalmente o seu gosto Musical.

Durante as sessões de masterização desse disco, o Ed me falou pela primeira vez do seu terceiro disco, “Entre e Ouça”.

Me disse que era um disco muito especial, e que ele gostaria muito que esse disco fosse remasterizado, porém com muito cuidado pois ele gostava demais da sonoridade um pouco mais abafada, bem diferente do “Manual Pratico 1”, bem mais processado e brilhante.

Em 2002, a WEA estava comemorando 20 anos de Brasil e estava relançando vários discos com versões remasterizadas para o CD e o Ed me ligou todo animado e disse,  lembra do meu disco “Entre e Ouça”, e eu respondi claro que sim! ele continuou, vamos fazer a master dele? Eu todo empolgado, claro!! Quando começamos?

Dias depois eu recebi os tapes originais em 1/4 de polegada gravado com dolby SR.

Alinhei a máquina Studer A-80, ajustei o dolby SR 361 e comecei a ouvir. O Tape ia tocando e eu ficava cada vez mais encantado! O timbre da caixa, da bateria era sensacional, do rhodes….quantos instrumentos vintage!

Tudo soava bem demais! Aquele som mais abafado era incrível! A Distribuição dos instrumentos pelo stereo…. Que disco!

Decidi então fazer uma masterização bem conservadora, preservando ao máximo a sonoridade original. Utilizei os equalizadores Manley EQP1-A e EQM e o compressor Manley – Varimu, sem nenhum processamento digital, apenas a gravação em 44.1Khz/24Bits no Sonic Solutions.

Os Pultecs tem um timbre bem suave, perfeitos para o que o Ed queria. Adicionei com cuidado um pouco de 3Khz no Pultec EQM, 60 Hz e 16Khz no Pultec EQP1-A e apliquei uma compressão leve  com Attack e Release mais lentos, apenas para dar mais ganho.

Apresentei ao Ed Motta e ele ficou muito feliz, me disse que era exatamente o que ele queria!

Depois ainda recebi mais 5 faixas, com uma demo da faixa “Que Tal Londres?” e quatro faixas ao vivo gravadas no dia 18 de maio de 1993 no Theatre du Chatelet em Paris.

Em um post recente no facebook, disse  esse disco que não teve boa aceitação na época e que ele tinha ganhado a fama de pessoa difícil por  insistir em fazer o que ele acreditava, num meio onde a maioria se vendia fácil.

Disse ainda que a gravadora não queria lançar, deixando o disco  na geladeira mais de 6 meses com a  a justificativa era que não tinha uma música para tocar rádio, que não era comercial…

Eu acho esse disco fantástico! Eu gosto muito de ouvi-lo, especialmente de fones, que me leva sempre a uma viagem sonora e me faz lembrar das sessões de masterização em 2003.

Para mim, junto com AOR, são os melhores discos do ED Motta.

 

O meu primeiro contato com a masterização.

O meu primeiro contato com a masterização foi em 1988 e foi por acaso.

Foi na época em que eu ainda trabalhava como Eng. de Gravação nos estúdios Transamérica em SP em 1988 no final da gravação do Álbum ” Todos os Lados” do Capital Inicial.

A Mixagem estava aprovada e pronta para seguir para a fábrica quando o Marcelo Sussekind, produtor do Álbum, me ligou dizendo que queria ouvir comigo novamente todas as músicas e que tinha uma novidade, a gravadora Polygram tinha pedido uma montagem nova para lançar o álbum, além do Vinil, também em CD, algo ainda muito novo e ousado, pois essa mídia era bem nova e desconhecida aqui no Brasil e poucos álbuns tinham sido lançados até então.

Conversamos bastante sobre isso , sobre as possibilidades do CD e começamos a ouvir as músicas mixadas em Fita de 1/4 de polegada na máquina Studer A-80 e s e no final da audição o Marcelo me disse…

“Vamos masterizar?”

Eu disse … o que? ” isso mesmo” respondeu um Marcelo todo empolgado….

“masterizar meu amigo!

você nunca vai se esquecer desse dia, te garanto!”

Preciso de um equalizador, um Compressor e um limiter. Vamos fazer uma equalização e compressão totalmente diferente para o CD.

Quero melhorar o som, que eu já gosto muito, para o CD… se prepare para diversão” disse ele!

Eu tinha comprado um CD Player Discman da Sony em 1987 e tinha apenas 2 CDs, 1 do Police “Ghost in the machine” e outro do “Big Bam Bom”. Eu sabia que o som era incrivelmente melhor que o Vinil, que não continha ruídos, mas eu não conhecia o processo de preparar uma master para CD,.

Ouvimos os 2 CDs que eu tinha e com base em tudo o que conversamos, eu fiz uma nova montagem no próprio tape analógico, mudando a ordem das músicas, pois a montagem original da matriz para o Vinil foi feita levando em conta as limitações do corte de vinil e foi dividido em dois lados e no caso do CD, não tinhamos esse problema.

 

Montei o nosso SET de masterização na técnica do Estúdio Transamérica, com um equalizador orban 6228 , 1 compressor EMT 156 e um par de Limiter Urei 1176 , alinhei tudo , liguei na saida da maquina Studer no “Rack” de Masterização e comecei sem entender muito bem o que estava fazendo e comecei a fazer as correções de equalização e compressão em todas as músicas gravando tudo novamente em Tape na segunda Studer A-80 com dolby SR.

No começo, apanhei um pouco , mas pegamos logo o jeito e seguimos em frente. Passamos horas fazendo isso!

No dia seguinte, ouvimos tudo e o Marcelo estava muito contente com o resultado.

Eu fiz a nova montagem com o audio masterizado , cuidando das passagens entre as musicas e gravei tudo em um DAT 16BITS 48k e mandamos essa matriz para a gravadora.

Eu fiquei tão encantado com o processo que não parava de pensar nisso! Nos divertimos muito e realmente o ganho geral na mixagem foi enorme!

“Todos os Lados” Capital Inicial

Produzido por Marcelo Sussekind

1989 – Polygram

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Gravando o Tim Maia no Estúdio Transamérica SP

“Bota grave, bota médio, bota tudo!”

Tim Maia 1986

Domingo , 9:00 da manhã! Eu estava checando o alinhamento do gravador de 24 canais Studer A-80 mas eu não parava de pensar em como seria a gravação de um dos artistas mais talentosos, porém imprevisíveis do Brasil , o Tim Maia. Já começava diferente, pois era um domingo de manhã, dia pouco usual para se começar a gravação de um disco.

Terminei de alinhar o gravador, coloquei a fita nova ampex 456 de 2 polegadas no gravador e passei a zerar a console Harrison. Passava de tudo pela minha cabeça, mas pela primeira vez na minha vida, eu não fazia a menor idéia do que eu iria gravar naquele dia.

Depois de um bom tempo, maquina alinhada para gravação em 30 ips/510 nwb/s, vários cafés, chega o produtor do disco, o Chico Mourão. Eu já tinha trabalhado com o ele em outros projetos e fiquei um pouco mais tranquilo quando eu o vi entrar no estúdio e perguntei a ele o que iríamos gravar, quais os instrumentos seriam utilizados, para que eu escolhesse os microfones, local, planejamento dos canais e para que o assistente preparasse o estudio e para minha surpresa, ele me disse que não fazia a menor idéia, pois tinha sido enviado pela Continental, a gravadora do Tim Maia daquele disco, mas não tinha tido nenhum contato com ele.

Ficamos mais algumas horas esperando quando de repente chega o Tim Maia junto com o tecladista Marquinhos, o baixista chumbinho e o baterista Luis Carlos.

Tim chegou todo feliz e me disse ” Grande Carlos Freitas” …. Vamos nos divertir e muito hoje…. mas , quem é esse rapaz? ” eu respondi , o Chico Mourão Tim, seu produtor! E eles disse, “Produtor? quem disse que Tim Maia precisa de Produtor?

Bom, depois de muita negociação, Tim cedeu um pouco, aceitou a situação e começamos a conversar sobre o disco. O Tim não tinha nada planejado e me disse: “esta tudo aqui na minha cabeça e vamos gravando que vai dar certo” e emendou…” Carlos Freitas…. Tem uma bateria eletrônica ai? Preciso de um pattern… pattern… Palavra bonita…. Musical! ” e eu peguei a linn drum, conectei a saída stereo na console harrison , armei o canal 2 e 3 da Studer A 80 e criei um pattern primeiro com um click.

Eu comecei a ajustar o andamento, quando o Tim, todo empolgado, vira para mim e diz, ” Beleza… agora faça isso para mim… Pum pá pum pum pá! ” E eu programei primeiro o BB, depois a CX e o hi hat e estava criado o pattern. Tim abre um sorriso e diz” yeees , isso ai… Grande Carlos Freitas” vamos lá, vamos lá… vou gravar bateria e voz….. E eu disse como assim??? E ele me disse , ” isso ai ligue um mic aqui na técnica e grave minha voz junto com o pattern” Eu disse, Tim, vamos programar a música , com contagem…. Ele disse, ” não …. Está bom assim… gravando….!

Eu pedi ao assistente que ligasse um microfone eletrovoice RE 20 e e em seguida eu o liguei direto um compressor com Pré inovonics 201 direto no canal 18 da Studer ( eu gostava de usar esse canal para gravar voz, e nem me lembro por que, mas eu sempre usava esse canal para voz). Escolhi o RE 20 pela característica do MIC, ótimo para o timbre grave do Tim , por ser direcional e por que eu estava muito preocupado com o vazamento pois estávamos na técnica com o volume bem alto e esse mic se encaixava perfeitamente.

Enquanto o mic era montado, eu melhorei a programação do pattern adicionado um shaker e ajustando os timbres, separei os canais da Linn em BB, CX , HH, SKR , direcionei aos canais da Studer e coloquei a Linn drum bem em frente ao Tim e disse” quero gravar gente, vamos! …. gravando !

Apertei as teclas PLAY/REC da studer e Tim Fez a contagem “1 2 3 4” e apertou a tecla start da linn drum com aquele pattern apenas em loop tocando Pum pá pum pum pá…. e ele começou a fazer com a boca os metais pá pá pá paaaaaa para … pá pá pá páaaaaa para para … e começou a cantar. Do leme ao pontal….. e foi cantando e de repente ele canta …. olha o breque, olha o breque…. aperta a tecla stop da linn…. canta… sem falar do calabouço Flamengo Botafogo, urca , Praia vermelha… Do leme ao pont… e aciona a linn novamente … al … Pa pa paaaaa para… E vai até ate o final.

Pronto , tínhamos a primeira base gravada…. Do leme ao pontal! ele rindo muito me disse, “yessssss abra outro canal que eu vou dobrar a voz….!” E eu disse , dobrar? “Sim …. Vamos lá…… ” e cantou a música novamente, cheio de palvras junto com a letra e acredite, essa voz valeu, mas havia um detalhe, não havia harmonia! O Tim cantou só com a bateria e para nossa surpresa, quando o Marquinhos e Chumbinho foram tocar o tom e a afinação estavam ok…..

Já era segunda de manha quando terminamos a gravação dessa musica, gravando baixo, piano e guitarra e fomos dormir…

Na quinta retomamos a gravação e começamos a gravar a musica pudera. Dessa vez, junto com o Marquinhos e o Chico Mourão, programamos a musica na Linn Drum, Marquinhos gravou o Piano Yamaha CP 80, o Tinho gravou o Sax e fizemos todas as coberturas. O Tim estava muito feliz e cantou a musica maravilhosamente bem, só que no Estudio e dessa vez usei um Neuman U 87.

Parti os para a terceira musica , Brother,Father,Sister,Mother , e seguimos em frente com a gravação.

Sexta feira, 3 da tarde chegam os metais para gravar e o Tim disse “Galera, estou terminando aqui…. Tem um bar na esquina… Vão tomar uma cerveja que eu já chamo voces em 15 minutos…. Continuei com as coberturas e eu ria muito…. O Tim dava bronca em todo mundo, pegava o baixo e tocava tudo errado…. E dizia quero assim!

Bom, 10 da noite eu disse Tim, e os metais? Ele me disse “oh rapaz, chame lá os caras…. Vamos colocar essa metaleira” e eu mandei o assistente chama-los no Bar…. Nem preciso dizer o estado que os caras estavam…. E que até as sete da manha de sabado não tínhamos gravado nada…. Era tudo tão engraçado que ninguém parava de rir! conclusão, não gravamos nada!

Voltamos ao Estúdio no sabado a noite e começamos pelos metais e ficou bem legal. Usei um microfone neauman usm 69 stereo a 2 metros da meia lua formada por eles. A Transamerica tinha 2 salas de gravação, uma muito viva com Madeira no chão e uma parede de espelhos com uma cortina que controlava o ambiente e uma sala enorme com carpete, madeira e pedras. Eu posicionei os musicos de costas para a parede de pedra , posicionei o USM 69 e comecei a passar o som equlibrando o volume dos instrumentos pelo posicionamento dos músicos e após um passo para frente e outro para trás , o equlilibrio estava ok e comecei a gravar. Eu sempre gravei metais dessa maneira, nunca gostei de microfones individuais e o resultado ficou exatamente como eu queria!

No domingo, o Tim queria gravar o coro do breque da musica do leme ao pontal , mas queria muita gente…. Fui ate a radio e chamei todo mundo…. Porteiro, pessoal da discoteca , quem estava lá gravou…. E o Tim ligou para todos amigos em SP e de repente estavam lá o pessoal do placa luminosa, o Frankye , Tony Bizarro e estava formado o coro!

Coloquei 2 mic Neauman U 87 em figura 8 bem no meio daquela galera e comecei a gravar … Deu tudo certo. Ouvimos amúsica com aquele monte de gente, uma festa no Estudio e o Tim diz “grande Carlos Freitas…. me da um abraço….. Encerramos por aqui….. vou fazer o restante no Rio, pois preciso ainda compor o restante das musicas…. Você pode mixar essas 3 rapidinho?” e eu disse, claro e ele emendou ” Bota grave, bota médio , bota tudo! eheheheh quero tudo!” e comecei a mixar.

Eu percebi que a gravação tinhas coisas boas, especialmente os metais e a voz do Tim, mas as baterias eram bem simples, retas… Não estavam legais… Pensei, vai dar muito trabalho mixar isso aqui! Enfim, não gostei nada mas era o que tínhamos. Fiz uma mix bem rápida e gravei em um cassete para ele.

Muitos meses depois , falei com o Chico Mourão, agora grande amigo do Tim, que me disse que tinha conseguido terminar a gravação do disco com o Lincoln Olivetti, e que iria mixar no Rio. e eu perguntei sobre a gravação das 3 musicas feitas em SP e ele me disse “você vai ter uma surpresa”.

Combinamos de ouvir as musicas na Transamérica depois de mixadas e quando eu ouvi achei inacreditável! O Lincoln Oivetti simplesmente reprogramou as baterias com muito swingue usando uma linn 9000, com timbres incríveis, colocou o breque no tempo e regravou todos os teclados! Fiquei chocado, aliviado e feliz com o resultado. Gênio! Essa era a única palavra que vinha em minha cabeça sobre o Lincoln Olivetti!

Em 1998, a Continental que agora pertencia a WEA, resolveu remasterizar varios discos do Tim eles contrataram a Cia de Audio para a remaster e para minha felicidade, esse disco fazia parte do projeto e eu trabalhei nele novamente , trazendo de volta a viagem que foi gravar parte desse disco.

Tim, onde quer que você esteja, saiba que sou privilegiado por ter vivido esses momentos com você…. Ter gravado sua voz grave e impar….. Nunca me esquecerei!

Do Leme ao Pontal – Tim Maia (Warner Continental 1986)
http://youtu.be/H9cNXv0f6EI