Suricato recorre à leveza pop folk do Melim para fazer ‘Astronauta’ levitar

Cantor da banda Barão Vermelho apresenta inédita música autoral em single gravado com o trio.

Por Mauro Ferreira G1

♪ A doçura pop folk do Melim dá o tom de Astronautasingle gravado pelo cantor carioca Rodrigo Suricato com a participação do trio fluminense.

As vozes leves dos irmãos Diogo Melim, Gabriela Melim e Rodrigo Melim ajudam a inédita canção Astronauta a levitar com fluência por nichos do universo pop que dificilmente seriam alcançados somente por Suricato.

Vocalista e guitarrista da banda Barão Vermelho, Suricato assina a composição Astronauta em parceria com Maurício Barros, tecladista da formação original do Barão, recentemente reintegrado ao grupo de rock.

A versão suave de Astronauta que aterrissou nas plataformas de áudio em single apresentado na sexta-feira, 24 de janeiro, é uma das sete possibilidades de registros cogitados por Suricato na pré-produção da faixa com o Melim. O tom escolhido soa em sintonia com o clima ameno da canção Astronauta.

Rodrigo Suricato fez bem ao recorrer à leveza pop folk do Melim para fazer o single Astronauta decolar e levitar.

Ivete Sangalo repõe bloco na rua com EP ‘O mundo vai’

EP será lançado em 24 de janeiro com três músicas inéditas, incluindo faixa gravada com o humorista Whindersson Nunes.

Por Mauro Ferreira G1

Duas semanas após ter apresentado o single Pra vida inteira, gravado com Silva, Ivete Sangalo volta ao mercado fonográfico e lança EP, O mundo vai, na próxima sexta-feira, 24 de janeiro.

De tom carnavalesco, a música-título O mundo vai já vem sendo mostrada em shows pela artista desde o fim de 2019. O clipe da faixa foi gravado em 16 de dezembro na Praia do Forte, na Bahia, com figurinos e adereços alusivos aos blocos de rua.

Além de O mundo vai, o EP apresenta outras duas músicas inéditas, Coisa linda – gravada com o humorista Whindersson Nunes – e Não me olhe assim, gravada com Tom Kray, pseudônimo artístico do cantor Tomate, com direito a clipe filmado no Pelourinho, no Centro Histórico de Salvador (BA).

A propósito, todas as músicas do disco O mundo vai ganharam clipes para gerar conteúdo audiovisual, como é (cada vez mais) comum atualmente no universo pop.

O novo EP foi produzido por Radamés Venâncio, mixado pelo Beto Neves e Masterizado pelo Carlos Freitas aqui na Classic Master.

Sapopemba, voz dos terreiros, saúda orixás em disco com canções autorais e tradicionais temas afro-brasileiros

Por Mauro Ferreira G1

Sapopemba – nome artístico do cantor e percussionista alagoano José Silva dos Santos – já foi pintor de parede, mecânico e motorista. Como caminhoneiro, José percorreu estradas que o conduziram a rincões e nichos da cultura afro-brasileira.

O trânsito por esse território ancestral ajudou José a se tornar Sapopemba, nome tomado do bairro da periferia da cidade de São Paulo (SP) para onde se mudou com a familia aos 14 anos. É como Sapopemba que ele se apresenta no álbum Gbọ́, lançado pelo Selo Sesc neste mês de janeiro de 2020.

Gbọ́ – disco cujo título significa “ouça” na língua iorubá – apresenta repertório composto basicamente por saudações a orixás. Algumas são feitas em temas afro-brasileiros de domínio público reverberados na voz rústica de Sapopemba. Outras são cantigas compostas na mesma linha pelo próprio artista, sozinho ou com eventuais parceiros como Guitinho da Xambá.

Coautor de Tatará, canção feita para saudar o orixá Ogum Tatará, Guitinho caracteriza Sapopemba como um maestro sinfônico dos cantos e da percussão, das ancestralidades dos Brasis africanos, indígena e mouro.

“Sapopemba é um misto de natureza pura e homem construído com ferradura. Como muitos guerreiros nordestinos, ainda adolescente, nadou no curso contrário às águas do Velho Chico e seguiu do Nordeste para o Sudeste do Brasil a fim de tentar a vida na urbanidade do estado de São Paulo. Fincou um homem xangozeiro, sertanejo, macumbeiro e cosmopolita, universal por ser único”, conceitua Guitinho em texto escrito para o encarte da edição em CD do álbum Gbọ́.

Sapopemba lança o álbum ‘Gbọ́’ neste mês de janeiro — Foto: José de Holanda / Divulgação

Ao longo de 50 anos de pesquisas, Sapopemba construiu repertório formado por cocos beradeiros de Alagoas, sambas de roda e chulas da Bahia, cantos de Orixás de Nação Angola, cantigas de caboclo e cantigas de roda.

No álbum Gbọ́, os louvores aos orixás dão o tom afro-brasileiro de repertório que inclui canção praieira do buda nagô Dorival Caymmi (1914 – 2008), É doce morrer no mar, lançada em 1941 com versos do escritor Jorge Amado (1912 – 2001).

Com a autoridade de quem já atuou com ogã (espécie de protetor) de terreiros de Candomblé, Sapopemba sabe o que diz e canta, em português ou em dialetos africanos, neste álbum gravado com a voz da cantora Patrícia Bastos – convidada de Ori Dje Dje, canção para Iemanjá composta por Sapopemba – e com o toque da guitarra de Kiko Dinucci em temas como KavungoN’Zaze e Oyá.

Jota Quest anuncia o décimo álbum de estúdio e documentário sobre a banda

Por Mauro Ferreira G1

Nos correntes anos 2010, o Jota Quest renovou o repertório com dois revigorantes álbuns de músicas inéditas, Funk funky boom boom (2013) e Pancadélico (2015), ambos produzidos pelo músico norte-americano Jerry Barnes.

Esses álbuns se impuseram entre os melhores de toda a discografia da banda. Por isso mesmo, a expectativa já é naturalmente alta para o álbum de estúdio que Marcio Buzelin (synths, pianos e órgãos), Marco Túlio Lara (guitarras e violões), Paulinho Fonseca (bateria), PJ (baixo) e Rogério Flausino (voz) planejam gravar e lançar entre 2020 e 2021 com repertório inédito e autoral.

Será o décimo álbum de estúdio da banda, se posto na conta o disco independente de 1995, J. Quest, de circulação bem restrita.

Após o iminente encerramento da turnê nacional do show e disco Acústico Jota Quest – Músicas para cantar junto, espetáculo visto por mais de 700 mil pessoas desde que estreou em maio de 2017 em turnê que gerou mais de 200 apresentações em 140 cidades , o quinteto tira o olho do retrovisor para começar a idealizar o disco, mas sem desapegar totalmente do passado.

É que, além do álbum de músicas inéditas, o Jota Quest também planeja produzir documentário sobre a trajetória da banda de pop soul formada em 1993 na cidade de Belo Horizonte (MG).

“Vamos produzir um doc bem completo sobre a nossa trajetória, desde lá dos botecos de BH até aqui, mas olhando também para o futuro”, vislumbra Rogério Flausino, vocalista da banda.

Paralelamente à produção do disco e do filme, o Jota Quest engata outra turnê em 2020 e 2021, desta vez com show plugado, comemorativo dos 25 anos de carreira fonográfica dessa banda que alcançou projeção nacional em 1996 e, desde então, nunca perdeu o elo com o público.

Aos 40 anos, Luciana Mello já começa a festejar 35 anos de carreira

Cantora inicia comemoração com single em que regrava samba lançado por Arlindo Cruz.

Por Mauro Ferreira G1

Embora tenha somente 40 anos, Luciana Mello já caminha em 2020 para os 35 anos de carreira iniciada em 1985, quando tinha somente seis anos e entrou em estúdio com o pai, Jair Rodrigues (1939 – 2014), para gravar participação em disco do artista, começando na sequência uma trajetória como cantora mirim de projetos infantis.

Com planos de festejar a efeméride com disco de sambas e com registro audiovisual de show, além de minidocumentário, a artista paulistana começa a comemoração com a edição do single Como um caso de amor.

Neste single, gravado com produção musical e arranjo do violonista Walmir Borges, Luciana Mello regrava o samba de André Renato e Ronaldo Barcellos lançado há oito anos na voz do bamba Arlindo Cruz em registro feito para o álbum Batuques e romances (2011). A letra faz exaltação ao samba.

Capa do single ‘Como um caso de amor’, de Luciana Mello — Foto: Divulgação / ONErpm

A (re)gravação de Como um caso de amor foi feita por Luciana com os toques de músicos virtuosos como Carlinhos Sete Cordas (violão de sete cordas), Jota Moraes (piano) e Mauro Diniz (cavaco).

Já distanciada do pop que a projetou há quase 20 anos com o álbum Assim que se faz (2000), Luciana Mello redirecionou a carreira progressivamente para o samba e a MPB, em sintonia com o tom do real primeiro álbum solo da artista, Luciana Rodrigues, lançado em 1995 e batizado com o nome artístico então adotado por Luciana Mello.

O apego crescente da cantora ao samba já rendeu disco dedicado ao gênero, Na luz do samba (2016), editado há três anos.

Mariana Aydar saúda Dominguinhos no pulso final do álbum ‘Veia nordestina’

Por Mauro Ferreira G1

Mariana Aydar revela na sexta-feira, 6 de dezembro, as últimas três faixas inéditas que compõem o repertório do sexto álbum da cantora e compositora paulistana, Veia nordestina, produzido por Marcio Arantes.

O álbum foi paulatinamente apresentado em sequência de três EPs lançados entre abril e julho com três músicas, cada um.

Das três faixas que permaneciam inéditas, uma é a regravação de Espumas ao vento (1997), o maior sucesso do cancioneiro autoral de Accioly Neto (1950 – 2000), compositor goiano de vivência pernambucana. Aydar desacelera o ritmo da composição, soprando Espumas ao vento como balada pop, com direito ao toque encorpado da guitarra de Guilherme Held.

Mais dentro do eixo nordestino em que pulsa o disco, Venha ver é mix de arrocha e xote de autoria de Anastácia em parceria com Liane. A música bomba na batida eletrônica orquestrada pelo produtor Marcio Arantes, piloto do MPC, do baixo synth e das programações sobressalentes na gravação.

Anastácia, para quem não liga o nome ao som, é a cantora e compositora pernambucana que foi parceira de Dominguinhos (1941 – 2013) na vida e na música. Mariana Aydar conviveu com Dominguinhos e chegou a documentar o legado do artista em filme.

Por isso, faz todo sentido que o álbum Veia nordestina termine com saudação ao cantor, compositor e sanfoneiro pernambucano.

Pontuada pelo toque do acordeom de Mestrinho, a gravação da canção autoral Para Dominguinhos flagra Mariana Aydar imersa em sertão inundado de saudade de artista que, de certa forma, parece ter servido de norte para a cantora seguir o pulso da veia nordestina.

Essa veia oxigena álbum que dá tom contemporâneo a músicas abrigadas sob o arco rítmico dos gêneros genericamente rotulados como forró ao mesmo tempo em que se alimenta dessas ricas tradições musicais da nação nordestina.



Anavitória reduz cancioneiro de Nando Reis a elegante denominador comum na equação do álbum ‘N’

Dupla aborda oito músicas do compositor em disco valorizado pela produção de Tó Brandileone.

Por Mauro Ferreira G1

Terceiro álbum da dupla Anavitória, N foi arremessado nas plataformas de áudio nesta sexta-feira, 29 de novembro, sem aviso prévio. Ainda assim, não chega a ser surpresa a opção de Ana Caetano e Vitória Falcão por apresentar disco com músicas do cancioneiro de Nando Reis. No caso, oito canções entremeadas com três vinhetas que totalizam as 11 faixas do álbum N.

A dupla já tinha abordado o repertório do compositor paulistano em programa de TV da série Versões antes de se juntar com o cantor em junho de 2018 em turnê idealizada para faturar com o Dia dos Namorados. Em dezembro daquele mesmo ano de 2018, Anavitória abordou a canção N (2006) em single gravado com Reis.

A primeira faixa do álbum NVoz e violão, reproduz áudio de 28 segundos em que Nando Reis discorre sobre o valor da imperfeição na música feita com humanidade. Longe tanto da perfeição quanto do erro, o álbum N tem valor na discografia de Anavitória porque nunca a dupla deu voz a um repertório tão coeso.

Mesmo antes de sair do grupo Titãs, em 2001, Nando Reis começou a se impor como um dos grandes artesãos do pop brasileiro. Dono do dom de compor melodias envolventes, em geral com suavidade evidenciada por letras embebidas em afeto, Reis soube extrapolar o universo original do rock sem perder a identidade.

Capa do álbum ‘N’, de Anavitória

No álbum N, Anavitória dá ênfase a esse repertório mais melodioso com arranjos pautados pela delicadeza. Confiada a Tó Brandileone, integrante do grupo 5 a Seco, a produção musical de N soa extremamente elegante, ainda que Ana Caetano e Vitória Falcão reduzam o cancioneiro de Nando Reis a um denominador comum em linha compatível com o universo musical do fofolk que deu fama à dupla.

É preciso escutar o álbum N sob a perspectiva da geração dessas cantoras e compositoras de 25 anos. Do contrário, será irresistível a vontade de preferir ouvir canções como All star (2000), Relicário (2000) e As coisas tão mais lindas (1999) na voz icônica de Cássia Eller (1962 – 2001), a melhor intérprete do cancioneiro de Nando Reis ao lado do próprio cantor e compositor.

Faltam sutilezas, por exemplo, na abordagem de Pra você guardei o amor (2009) que inferiorizam a gravação da dupla diante do registro original da canção, feito por Reis há dez anos em dueto com Ana Cañas.

Contudo, sob o prisma da geração de Anavitória, é inegável os encantos de NDois rios (Samuel Rosa, Nando Reis e Lô Borges, 2003) flui muito bem em curso que distancia a canção da fonte do Clube da Esquina.

Antecedida pela vinheta O pai da Zoé, que reproduz áudio de Nando sobre a preponderância da filha na vida dele, Espatódea (2006) desabrocha com a devida leveza, embora seja canção do universo particular do compositor, assim como a já mencionada All star, composta por Nando para expressar o amor por Cássia Eller.

Quem vai me dizer tchau? (2000) ganha pressão sem perder a leveza e sem se impor no repertório. Já Por onde andei (2004) perde a pegada roqueira do registro original de Nando com ganho para a melodia. Na equação de N, o denominador comum de Anavitória gera saldo positivo.

Se varia o poder de sedução da interpretação da dupla, a produção musical de Tó Brandileone se mantém no tom ao longo do álbum, cujo repertório poderia prescindir da vinheta 209, que parece estar no disco somente para aumentar o número de faixas.

Ao fim da faixa final, a já citada Por onde andei, Nando Reis sentencia que o risco é fundamental no mundo da música. Sem trair a própria identidade, Anavitória se arrisca (um pouco) ao mostrar para jovens gerações um cancioneiro de maior força melódica e poética do que o habitualmente conhecido pelo público da dupla. Esse risco (calculado) é o mérito do álbum.

N foi mixado pelo Ricardo Mosca e masterizado aqui na Classic Master pelo Carlos Freitas.


Thalma de Freitas é indicada na categoria de jazz latino por álbum assinado com o compositor norte-americano John Finbury.

Residente em Los Angeles (Califórnia, EUA) desde 2012, a artista tem o disco Sorte! indicado ao prêmio de Melhor álbum de jazz latino – categoria que costuma concentrar indicações de artistas brasileiros na mais importante premiação da indústria fonográfica norte-americana ao lado da genérica categoria de world music.

Capa do álbum ‘Sorte!’, de John Finbury com Thalma de Freitas

Lançado neste ano de 2019, o álbum Sorte! apresenta seis músicas cantadas e compostas por Thalma em parceria com o compositor norte-americano John Finbury. Coube a Thalma escrever em português as letras das músicas FilhaMaioOndasOraçãoSorte! e Surrealismo tropical.

Músicos brasileiros – como o percussionista Airto Moreira, o violonista Chico Pinheiro, o baterista Duduka da Fonseca e o pianista Vitor Gonçalves – participaram da gravação do disco, editado pelo selo Green Flash Music.

O disco de Thalma de Freitas com John Finbury concorre ao prêmio de Melhor álbum de jazz latino no Grammy 2020 com discos de Chick Corea e Rubén Blades, entre outros relevantes nomes associados ao jazz latino.

O álbum Sorte! foi produzido por Emilio D. Miler, mixado por Ary Lavigne e masterizado por Carlos Freitas.

Fernanda Takai volta ao cancioneiro de Tom Jobim em DVD gravado em cartão-postal do Rio.

Por Mauro Ferreira G1

Em junho de 2018, quando Fernanda Takai lançou álbum em que deu voz ao cancioneiro do compositor carioca Antonio Carlos Jobim (1927 – 1994), uma gravação em especial sobressaiu entre as 13 faixas do disco O Tom da Takai.

Bonita (Antonio Carlos Jobim, Gene Lees e Ray Gilbert, 1964) soou realmente bela, inclusive por expor a refinada interação entre a musicalidade de Marcos Valle e a de Roberto Menescal, compositores aos quais foi confiada a produção deste disco solo da vocalista do grupo Pato Fu.

Por isso mesmo, soa natural que Bonita seja a música escolhida para ser o primeiro single do registro audiovisual do show baseado no álbum O Tom da Takai.

Na gravação ao vivo de Bonita, o diálogo musical entre Menescal (guitarra) e Valle (piano e teclados) é desenvolvido no arranjo executado pela banda que também inclui os músicos Caio Plínio (bateria), Diego Mancini (baixo), Fernando Merlino (teclados) e Thiago Delegado (violão).

Capa do single ‘Bonita ao vivo’, de Fernanda Takai — Foto: Divulgação

Disponível desde sexta-feira, 8 de novembro, o single Bonita ao vivo chega ao mercado fonográfico duas semanas antes do álbum e DVD O Tom da Takai ao vivo, cujo lançamento está programado para 22 de novembro pela gravadora Deck.

Feita em julho deste ano de 2019, a gravação ao vivo do show aconteceu em ambiente intimista, em hotel do Rio de Janeiro (RJ), cidade natal da Bossa Nova, com vista para o mar.

A intenção foi ambientar o show em cartão-postal que remeta às origens da música do carioca Jobim. “Essa paisagem remonta aos tempos do surgimento da Bossa Nova. Mar, montanha, céu, amigos tocando juntos de um jeito bem despretensioso, num lugar lindo”, descreve Fernanda Takai.

Marília Pêra deixa registro de valentia no canto de metade do álbum ‘Por causa de você’

Perfeito entendimento das letras contrapõe a vulnerabilidade da voz em seis das 12 músicas do disco que artista não teve tempo de concluir.

Por Mauro Ferreira G1

Eternizada como uma das melhores atrizes do Brasil e do mundo, Marília Marzullo Pêra (22 de janeiro de 1943 – 5 de dezembro de 2015) foi feiticeira dos palcos que também deixou encanto em discos.

A obra fonográfica da artista carioca ganha título póstumo neste ano de 2019, Por causa de você, álbum posto no mercado nesta sexta-feira, 1º de novembro, com 12 músicas.

Seis são ouvidas na voz já fragilizada de Marília, gravadas quando a atriz-cantora já driblava os efeitos do câncer que a tirou de cena há quase quatro anos.

A rigor, o que se ouve no disco são vozes-guias dessas seis faixas, registros da valentia dessa artista singular que não teve tempo de entrar no estúdio da gravadora Biscoito Fino para pôr as vozes definitivas nas 12 músicas do disco arquitetado por Kati Almeida Braga para reacender a chama da artista.

Por força das circunstâncias, o disco inacabado acabou concluído com as vozes de familiares e amigos de Marília em solução coerente com a disposição da atriz de sempre procurar trabalhar dentro do círculo pessoal de afetos.

Capa do álbum ‘Por causa de você’, de Marília Pêra — Foto: Divulgação

Também por força das circunstâncias, o álbum Por causa de vocêresulta aquém do descomunal talento de Marília Pêra, como mostram os registros do bolero bilíngue A cara do espelho (Nelson Motta e Guto Graça Mello, 1975), da canção Lua e flor (Oswaldo Montenegro, 1988) – composta para peça Brincando em cima daquilo, encenada pela artista com sucesso entre 1984 e 1985 – e dos sambas-canção Risque (Ary Barroso, 1953), Duas contas (Garoto, 1955) e Por causa de você(Antonio Carlos Jobim e Dolores Duran, 1957).

Contudo, mesmo que a vulnerabilidade da voz sobressaia nas interpretações impregnadas de melancolia, há um perfeito entendimento do sentimento das letras, até natural no canto de grande atriz do porte de Marília. Essa compreensão precisa é exemplificada pelo canto de Não me deixes mais, versão em português – escrita pelo poeta letrista Fausto Nilo – da desesperada canção belga Ne me quitte pas(Jacques Brel, 1959).

Confiada a José Milton, a produção musical do álbum Por causa de vocêenquadra as 12 faixas na moldura tradicionalista típica dos discos formatados por Milton com músicos como o pianista Cristovão Bastos (autor dos arranjos), o violonista João Lyra e o baixista Jorge Helder. Milton se aventura como cantor em dueto com a artista na música-título Por causa de você.

Entre as seis faixas ouvidas nas vozes dos familiares e amigos da artista, merece menção o registro de Chinelinho chinfrim, letra escrita por Marília nos anos 1970 com música de Guilherme Lamounier (1950 – 2018).

A intenção da cantora é que a música fosse gravada pelo grupo feminino As Frenéticas, integrado pela irmã da atriz, Sandra Pêra. Escrita com certa irreverência, Chinelinho chinfrim nunca ganhou as vozes das Frenéticas, permanecendo inédita em disco até ser recuperada para esse álbum.

Sandra Pêra lidera o time de intérpretes que inclui as filhas de Marília, Esperança Mota e Nina Morena, além de atores como Ney Latorraca e Arlete Salles.

Enfim, o álbum Por causa de você certamente tem valor documental para eternos seguidores da artista, mesmo sem expor o potencial dramático do canto da atriz.

Marília Pêra tinha tanto talento que a iniciativa é louvável. Mas seria mais importante a reposição em catálogo de títulos viçosos da discografia da artista, como os álbuns A noiva do condutor (1985) – registro de ópera até então inédita do compositor carioca Noel Rosa (1910 – 1937) que Marília gravou com o ator Grande Otelo (1915 – 1993) e o Conjunto Coisas Nossas – e Elas por ela (1990), editado com a trilha sonora do espetáculo musical de 1987 em que Marília Pêra deu voz e corpo a cantoras como Carmen Miranda (1909 – 1955), Dalva de Oliveira (1917 – 1972) e Wanderléa.