Foco na Eficiência

Já se passaram 23 anos desde que eu masterizei o meu primeiro projeto, o disco do Arnaldo Antunes “Nome”, ainda na Cia de Áudio em 1994 com lançamento apenas em Vinil.

Ao longo desses anos, acompanhei o final da era do Vinil como mídia principal, toda a era do CD e do download e agora estou acompanhando a solidificação da era do Stream.

O processo de masterização de um álbum sempre foi o mesmo e as técnicas aplicadas foram se adaptando as necessidades técnicas de cada mídia nova que foi surgindo.

Foi assim com o Vinil, com o CD, com o download e agora com o stream.

O que mudou mesmo nesses anos todos foi o conceito de tempo.

“Nome” Arnaldo Antunes – 1994 BMG

Durante a masterização do CD Nome, Eu, o Arnaldo, sua esposa e o alguns músicos que participaram do disco, ficamos 1 semana no estúdio equalizando, comprimindo, ouvindo em dive rsos lugares, refazendo, ouvindo novamente e o projeto ficou pronto depois de muito trabalho e da certeza de que tinhamos esgotado todos os nossos recursos técnicos e artísticos com foco na arte!

O tempo não era um fator determinante nesse processo e sim um aliado, pois nós tínhamos todo o tempo necessário para se preocupar apenas com o processo de masterização e a mídia em que seria distribuído, não perdíamos 1 minuto sequer pensando na distribuição. O projeto chegava ao consumidor nas lojas 30 dias depois do envio da master para a fábrica.

Hoje é exatamente o oposto, o tempo é o fator determinante no processo e não é mais um aliado.

Como exemplo, eu recebi on-line um single mixado pelo Ronaldo Lima no estúdio Casa do Mato no Rio as 10:00 da manhã da dupla Pop Gus & Vic, masterizei para as mídias CD, iTunes e Spotify e ao meio dia enviei on-line para o Ronaldo e a dupla aprovar.

O Projeto chegou ao consumidor no dia seguinte a a música já estava tocando em rádios e mais alguns dias já estava disponível no Spotify, iTunes e YouTube e compartilhado e consumido por centenas de fãs no facebook.

“Sixteen” Gus & Vic – 2017 Independente

O processo de masterizar continua o mesmo que a 20 anos atrás, ou seja, equalizar, comprimir e encontrar elementos que ajude o artista a emocionar o seu fã.

As técnicas, evoluíram e se adaptaram a chegada das normas de normalização de áudio do stream digital, tanto para o iTunes e Spotify, quanto para a TV digital e youtube.

Hoje, o meu objetivo é fazer um grande trabalho de masterização focado na arte e emoção e aplicar técnicas diferentes para lidar com as normas e limitações de cada mídia e isso é pré-requisito para quem quer trabalhar com masterização.

Enviar a música perfeita o mais rápido possível ao cliente é o novo diferencial pois essa é a nova exigência do novo mercado de música global on-line.

Por isso o foco hoje está na eficiência!

A cauda longa e a produção de música

O que acontece quando tudo no mundo se tornar disponível para todos?

Em 2007, eu li o livro” A Cauda Longa”, de Chris Anderson, editor chefe da revista Wire e desde então, com base nesse tema brilhantemente abordado , eu venho traçando um paralelo com o nosso mercado de produção de música.

O livro fala sobre o efeito causado no mercado quando qualquer pessoa pode produzir conteúdo através de ferramentas gratuitas poderosíssimas ou com preços acessíveis, muitas vezes melhores que produtos caros destinados à grandes produtoras.

Até o final dos anos 90, gravar um disco era para poucos artistas, sempre contratados e produzidos por uma grande gravadora, pois a produção, os músicos e o aluguel dos estúdios custavam muito caro e praticamente só as grandes gravadoras tinham essa condição. Construir um estúdio então, exigia investimentos pesados e a maioria das gravadoras tinham os seus para gravar seus proprios artistas e os grandes estúdios aqui no Brasil, pertenciam a bancos ou emissoras de televisão. Pelo preço e pelo acesso aos fabricantes, esses equipamentos eram quase que exclusivos desses grandes estúdios.

Haviam poucos estúdios independentes e estes, geralmente gravavam pequenos artistas independentes que não tinham recursos para gravar em um grande estúdio. O Acesso a tecnologia era restrito, pois tudo era importado, caro e com isso os poucos clientes que gravavam pagavam pouco e o estúdio sem recursos não investia e não se desenvolvia, ficando sem chance de gravar um grande artista com mais recursos.

Hoje, com os computadores, com a diminuição do custo dos equipamentos , com a internet e com quantidade enorme de programas que gravam música com seus milhares de “plug-ins” , os próprios artistas , produtores e músicos gravam suas músicas em seus próprios estúdios ou em centenas de ótimos estúdios independentes, sem depender de uma gravadora ou de um grande estúdio, pois tudo ficou muito mais fácil e acessível a qualquer pessoa.

A Cauda Longa é um livro essencial para quem quer entender o impacto nos negócios causado pelas novas tecnologias de venda de música como o iTunes e o eBay e da transformação do mercado de massa, dominado por poucos hits, para um mercado de inúmeros nichos e de micro-hits, ou seja , sobre os mercados de nicho conquistando espaço dos mercados de massa.

As novas tecnologias liberaram o usuário para embrenhar-se pelos nichos e libertar-se da tirania dos hits. Ao se depararem com a infinidade de músicas disponíveis no iTunes e no Spotify, em lugar de consumir apenas os hits ditados pelos produtores executivos das grandes gravadoras, os consumidores agora podem aventurar-se por ritmos inusitados, bandas de garagem, trocar suas próprias músicas.

Atualmente, a produção e gravação de música está acessivel a todo mundo que tem um celular conectado a internet. Descobrir novos equipamentos, softwares de audio, testa-los ficou muito simples. Nos anos 90 , somente a console de gravação custava US$ 500.000,00 e estávamos limitados aos grandes fabricantes de equipamentos. Hoje,  não dependemos mais desses grandes fabricantes de equipamentos, até por que eles já não são tão grandes assim , é só procurar no eBay ou no google que você vai encontrar bons equipamentos de gravação disponíveis tanto em hardware quanto em software a preços acessíveis.

Os poucos mega-stars dão lugar a um sem fim de micro-stars, cada um com sua pequena quantidade de “fãs”, e essas comunidades são impulsionadas pelos blogs pessoais, pelo facebook, twitter e myspace.

Hoje temos milhares de músicas bem gravadas e produzidas espalhadas pela web. Já não dependemos exclusivamente das gravadoras para se gravar e produzir e das rádios para divulgar, logo, através da internet e das redes sociais, muito mais pessoas produzem música e os estúdios gravam cada vez mais.

O principal fator para a criação de mercados de Cauda Longa é a redução dos custos para alcançar os nichos. Geralmente a redução dos custos se deve a três forças: a democratização das ferramentas de produção (o que alonga a cauda), a democratização das ferramentas de distribuição (o que horizontaliza a curva, pois aumenta a demanda pelos nichos) e a ligação entre a oferta e a demanda (o que desloca os negócios dos hits para os nichos).

A vinte anos atrás, os grandes fabricantes vendiam poucos e caros equipamentos a poucos estúdios. Hoje, só como exemplo, um compressor ou equalizador da Manley versão Plug-In, 1/10 do preço da mesma versão em hardware pode ser vendido a milhões de usuários pela internet.

A força da ligação entre a oferta e a demanda está nos filtros da cauda longa, que assumem a forma das buscas do Google, das recomendações de outros consumidores e amigos do facebook. Os filtros são uma forma da própria comunidade separar o que é bom do que é ruim. Estamos saindo da Era da Informação e entrando na Era da Recomendação. Hoje, é incrivelmente fácil obter informações.

Hoje, temos acesso aos fornecedores de equipamentos através dos seus sites e através das redes socias como o twitter, blogs e trocas de opiniões de usuários no forums de audios espalhados pelo mundo. São os proprios usuarios que endossam ou vetam esses equipamentos, que exigem modificações e são através dessas análises, que eles são divulgados, se tornam conhecidos e vendem mais.

A coleta de informação não é mais a questão, a chave agora é tomar decisões inteligentes com base nas informações…

O efeito básico da cauda longa é deslocar nossa preferência para os nichos, mas, à medida que ficamos mais satifsfeitos com o que descobrimos é provável que aumentemos nosso consumo, o que pode aumentar o tamanho do mercado total. Por outro lado, a variação nos preços depende se a compra do produto é fruto do desejo ou da necessidade. Por exemplo, livros menos procurados tem menos desconto na Amazon, enquanto que os serviços de música online tendem a dar descontos maiores para albuns antigos ou novidades obscuras. O iTunes, por outro lado acredita na simplicidade do preço único.

Apesar dos apelos da Cauda Longa, os hits continuam e continuarão a exercer uma grande influência. Uma aposta radical na Cauda Longa pode resultar em fracasso, pois os usuários não saberão por onde começar; ao aposta apenas na Cabeça, pode-se frustrar a expectativa dos usuários de obter cada vez mais.

Artistas com grandes Produções ainda atraem muitos clientes aos estúdios, mas não são mais exclusivos e fazem parte de uma extensa lista de outros clientes.

As mudanças da cultura de massa para a cultura de nichos é percebida de forma mais drástica nos meios de comunicação. Enquanto os jornais foram o meio de notícias proeminente até a década de 80, e as empresas de comunicação invadiram a Internet na década seguinte, hoje qualquer pessoa dotada de um celular pode escrever e ser lida por qualquer outra pessoa no mundo.

E por estas pessoas participarem efetivamente dos nichos, muitas vezes elas possuem informações melhores do que os jornalistas. Segundo Richard Posner, juiz e jurista, em uma resenha no New York Times, “o que realmente incomoda os jornalistas tradicionais é que, embora os blogs isoladamente não ofereçam garantia de exatidão, a blogosfera como um todo dispõe de melhor máquina de correção de erros do que a mídia convencional”. O mesmo pode se afirmar na comparação da Enciclopédia Britannica e a Wikipedia.

Hoje , ao contrario dos anos 90, os estúdios pequenos, cujos donos geralmente exercem a função de eng. prinicipal, é que estão bem equipados com equipamentos personalizados, vintage , possuem centenas de softwares e continuam a consumir mais equipamentos e com isso melhoram seus serviços e conquistam mais e mais clientes, que satisfeitos, os recomendam a outros clientes , que gravam no estúdio e o circulo se fecha.

E aqueles grandes estúdios das gravadoras e bancos? Bom, esses nem existem mais.