Sapopemba, voz dos terreiros, saúda orixás em disco com canções autorais e tradicionais temas afro-brasileiros

Por Mauro Ferreira G1

Sapopemba – nome artístico do cantor e percussionista alagoano José Silva dos Santos – já foi pintor de parede, mecânico e motorista. Como caminhoneiro, José percorreu estradas que o conduziram a rincões e nichos da cultura afro-brasileira.

O trânsito por esse território ancestral ajudou José a se tornar Sapopemba, nome tomado do bairro da periferia da cidade de São Paulo (SP) para onde se mudou com a familia aos 14 anos. É como Sapopemba que ele se apresenta no álbum Gbọ́, lançado pelo Selo Sesc neste mês de janeiro de 2020.

Gbọ́ – disco cujo título significa “ouça” na língua iorubá – apresenta repertório composto basicamente por saudações a orixás. Algumas são feitas em temas afro-brasileiros de domínio público reverberados na voz rústica de Sapopemba. Outras são cantigas compostas na mesma linha pelo próprio artista, sozinho ou com eventuais parceiros como Guitinho da Xambá.

Coautor de Tatará, canção feita para saudar o orixá Ogum Tatará, Guitinho caracteriza Sapopemba como um maestro sinfônico dos cantos e da percussão, das ancestralidades dos Brasis africanos, indígena e mouro.

“Sapopemba é um misto de natureza pura e homem construído com ferradura. Como muitos guerreiros nordestinos, ainda adolescente, nadou no curso contrário às águas do Velho Chico e seguiu do Nordeste para o Sudeste do Brasil a fim de tentar a vida na urbanidade do estado de São Paulo. Fincou um homem xangozeiro, sertanejo, macumbeiro e cosmopolita, universal por ser único”, conceitua Guitinho em texto escrito para o encarte da edição em CD do álbum Gbọ́.

Sapopemba lança o álbum ‘Gbọ́’ neste mês de janeiro — Foto: José de Holanda / Divulgação

Ao longo de 50 anos de pesquisas, Sapopemba construiu repertório formado por cocos beradeiros de Alagoas, sambas de roda e chulas da Bahia, cantos de Orixás de Nação Angola, cantigas de caboclo e cantigas de roda.

No álbum Gbọ́, os louvores aos orixás dão o tom afro-brasileiro de repertório que inclui canção praieira do buda nagô Dorival Caymmi (1914 – 2008), É doce morrer no mar, lançada em 1941 com versos do escritor Jorge Amado (1912 – 2001).

Com a autoridade de quem já atuou com ogã (espécie de protetor) de terreiros de Candomblé, Sapopemba sabe o que diz e canta, em português ou em dialetos africanos, neste álbum gravado com a voz da cantora Patrícia Bastos – convidada de Ori Dje Dje, canção para Iemanjá composta por Sapopemba – e com o toque da guitarra de Kiko Dinucci em temas como KavungoN’Zaze e Oyá.

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