Marília Pêra deixa registro de valentia no canto de metade do álbum ‘Por causa de você’

Perfeito entendimento das letras contrapõe a vulnerabilidade da voz em seis das 12 músicas do disco que artista não teve tempo de concluir.

Por Mauro Ferreira G1

Eternizada como uma das melhores atrizes do Brasil e do mundo, Marília Marzullo Pêra (22 de janeiro de 1943 – 5 de dezembro de 2015) foi feiticeira dos palcos que também deixou encanto em discos.

A obra fonográfica da artista carioca ganha título póstumo neste ano de 2019, Por causa de você, álbum posto no mercado nesta sexta-feira, 1º de novembro, com 12 músicas.

Seis são ouvidas na voz já fragilizada de Marília, gravadas quando a atriz-cantora já driblava os efeitos do câncer que a tirou de cena há quase quatro anos.

A rigor, o que se ouve no disco são vozes-guias dessas seis faixas, registros da valentia dessa artista singular que não teve tempo de entrar no estúdio da gravadora Biscoito Fino para pôr as vozes definitivas nas 12 músicas do disco arquitetado por Kati Almeida Braga para reacender a chama da artista.

Por força das circunstâncias, o disco inacabado acabou concluído com as vozes de familiares e amigos de Marília em solução coerente com a disposição da atriz de sempre procurar trabalhar dentro do círculo pessoal de afetos.

Capa do álbum ‘Por causa de você’, de Marília Pêra — Foto: Divulgação

Também por força das circunstâncias, o álbum Por causa de vocêresulta aquém do descomunal talento de Marília Pêra, como mostram os registros do bolero bilíngue A cara do espelho (Nelson Motta e Guto Graça Mello, 1975), da canção Lua e flor (Oswaldo Montenegro, 1988) – composta para peça Brincando em cima daquilo, encenada pela artista com sucesso entre 1984 e 1985 – e dos sambas-canção Risque (Ary Barroso, 1953), Duas contas (Garoto, 1955) e Por causa de você(Antonio Carlos Jobim e Dolores Duran, 1957).

Contudo, mesmo que a vulnerabilidade da voz sobressaia nas interpretações impregnadas de melancolia, há um perfeito entendimento do sentimento das letras, até natural no canto de grande atriz do porte de Marília. Essa compreensão precisa é exemplificada pelo canto de Não me deixes mais, versão em português – escrita pelo poeta letrista Fausto Nilo – da desesperada canção belga Ne me quitte pas(Jacques Brel, 1959).

Confiada a José Milton, a produção musical do álbum Por causa de vocêenquadra as 12 faixas na moldura tradicionalista típica dos discos formatados por Milton com músicos como o pianista Cristovão Bastos (autor dos arranjos), o violonista João Lyra e o baixista Jorge Helder. Milton se aventura como cantor em dueto com a artista na música-título Por causa de você.

Entre as seis faixas ouvidas nas vozes dos familiares e amigos da artista, merece menção o registro de Chinelinho chinfrim, letra escrita por Marília nos anos 1970 com música de Guilherme Lamounier (1950 – 2018).

A intenção da cantora é que a música fosse gravada pelo grupo feminino As Frenéticas, integrado pela irmã da atriz, Sandra Pêra. Escrita com certa irreverência, Chinelinho chinfrim nunca ganhou as vozes das Frenéticas, permanecendo inédita em disco até ser recuperada para esse álbum.

Sandra Pêra lidera o time de intérpretes que inclui as filhas de Marília, Esperança Mota e Nina Morena, além de atores como Ney Latorraca e Arlete Salles.

Enfim, o álbum Por causa de você certamente tem valor documental para eternos seguidores da artista, mesmo sem expor o potencial dramático do canto da atriz.

Marília Pêra tinha tanto talento que a iniciativa é louvável. Mas seria mais importante a reposição em catálogo de títulos viçosos da discografia da artista, como os álbuns A noiva do condutor (1985) – registro de ópera até então inédita do compositor carioca Noel Rosa (1910 – 1937) que Marília gravou com o ator Grande Otelo (1915 – 1993) e o Conjunto Coisas Nossas – e Elas por ela (1990), editado com a trilha sonora do espetáculo musical de 1987 em que Marília Pêra deu voz e corpo a cantoras como Carmen Miranda (1909 – 1955), Dalva de Oliveira (1917 – 1972) e Wanderléa.


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