Chico César oscila entre o amor e a guerra em disco pautado por fartura instrumental

Com repertório inteiramente autoral, o 12º álbum solo do cantor e compositor paraibano tem faixas com seis, sete e até oito minutos.

Por Mauro Ferreira G1

O título do 12º álbum solo de Chico César, O amor é um ato revolucionário, faz supor disco em sintonia com a ideologia pacifista do líder indiano Gandhi (1869 – 1948). As audições das 13 inéditas e autorais – todas compostas solitariamente pelo artista paraibano, sem parceiros – desfazem a impressão. 

Grande compositor projetado na primeira metade da década de 1990, Chico César oscila entre o amor e a guerra na criação de repertório gravado com arranjos de fartura instrumental – há faixas com seis, sete e até oito minutos! – que se alinham com a verborragia das músicas ao mesmo tempo em que contrastam com a escassez melódica de algumas composições. 

Na impaciente Eu quero quebrar, o artista revela o desejo de partir para a ação, de “tirar a ira do papel”, em arranjo que culmina com evocação do universo do soul e da música gospel norte-americana.

Capa do álbum ‘O amor é um ato revolucionário’, de Chico César

No reggae Pedrada, produzido por Eduardo BiD, Chico encarna espécie de Bob Marley (1945 – 1981) do sertão paraibano que fala na Babilônia enquanto vocifera contra os “cães danados do fascismo” que ajudaram a chocar “o ovo da serpente“, “fruto podre do cinismo“. 

Entre as mutações experimentadas ao longo das 14 faixas do longo álbum (Eu quero quebrar é reprisada ao fim do disco em outra gravação produzida por André Abujamra), Chico César soa mais fluente quando dialoga com a canção popular na viciante History, música produzida por Marcio Arantes e já previamente lançada em single

No álbum, History dialoga com Like, outra canção sobre o amor nos tempos virtuais. “Quando curto essas besteiras que você posta / Às vezes, eu me sinto um bosta / Mas eu gosto / Pois eu sei que você gosta”, rima Chico com a simplicidade típica dos hits populares. 

Feitas em ritmo mais frenético pela voz encorpada de Chico, as rimas de Lok ok sobressaem sem deixar de evidenciar a sonoridade de arranjo que destaca guitarra de toque africano. E por falar na África, o cantor exalta em As negras as mulheres que trazem o “axé vital” do continente matricial em faixa em que música e letra evoluem em fina sintonia.

Em O homem do cobertor poluído, o cantor faz evocação pálida do cancioneiro folk rock de outro engajado Bob, o Dylan, para versar com acidez sobre os pequenos burgueses, também alvos da lúdica Cruviana. Nesta faixa, Chico César e a cantora pernambucana Flaira Ferro caricaturam os vocais para forjar a aura de cabaré circense.

Já Luzia negra – composição (sobre o ancestral fóssil humano do Museu Nacional do Rio de Janeiro) formatada com sete minutos na produção musical orquestrada por André Kbelo Sangiacomo com o próprio Chico César – exemplifica a verborragia e as longas passagens instrumentais com que são apresentadas várias músicas do repertório do álbum O amor é um ato revolucionário

É tanta palavra em Minha morena – convite ao amor sensual – que a letra parece sobrar na melodia dessa música de oito minutos justificados pelo clima jazzy adotado na parte final da gravação. 

Se o rock Mulhero (assim mesmo, com um o acrescido à palavra mulher) desperdiça tempo em jogo de palavras, De peito aberto manda recado feminista, de forma mais certeira e direta, aos “manés” que desrespeitam os direitos das mulheres governarem o próprio corpo e a própria vida. Chico dá o recado com o agudo reforço vocal da cantora paraibana Agnes Nunes.

Sim, Chico César sabe tomar posição e partido sem deixar de ser amoroso quando quer. Na música-título O amor é um ato revolucionário, o artista discorre sobre a natureza do amor após a introdução instrumental de um minuto e 20 segundos que remete ao universo ibérico latente na nação musical nordestina. 

Guitarras e um coro de acento gospel sobressaem ao longo dos mais de sete minutos dessa faixa que representa o tom opulento de disco em que Chico César às vezes peca por excessos na revolução que propõe fazer com amor e com ação. 

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