Cristovão Bastos e Maury Buchala – Espelho

Como quem se mira no espelho, mas em franca conversa ao piano filmada por Nelson Pereira dos Santos nos anos 80 do século passado, Radamés Gnattali lamentava-se com Tom Jobim de que não conseguira realizar seu sonho de juventude, ir para Europa estudar música e ser concertista de piano: “Eu tinha que trabalhar para viver, fazer arranjo, rádio, estúdio…”.

Tom, igualmente como se diante do espelho, minimizava o sofrimento de seu mestre, agigantando-o. “Mas Radamés, que bom que você não foi, que ficou aqui, e fez essa musica linda, essa obra maravilhosa…”.

Ambos, gênios fundamentadores do que hoje chamamos de moderna música brasileira (sem a sempre confusa qualificação de “popular” ou “erudita”), ao olharem-se no espelho poderiam se deparar com o também compositor de piano Pestana, o famoso personagem de Machado de Assis do conto “O homem célebre”, que se ambicionava  um Mozart mas era simplesmente, e para sua íntima desgraça, o maior autor de polcas buliçosas do império brasileiro: “Compunha só, teclando ou escrevendo (…), sem exasperação, sem nada pedir ao céu, sem interrogar os olhos de Mozart. Nenhum tédio. Vida, graça, novidade, escorriam-lhe da alma como de uma fonte perene”.

Como herdeiros de Radamés e Tom, Cristóvão Bastos e Maury Buchala convivem com o mesmo dilema – o desejo de uma criação musical pura e a realidade da música profissional – mas cada um a seu jeito o superou. Ao mirarem-se no espelho neste “Espelho”, o que veem é algo preciso, ainda que pareça difuso, a julgar pela carreira e historia de vida de cada um: dois inspirados compositores de canções brasileiras, pianistas e arranjadores. Como Pestana, Radamés, Tom.

Maury Buchala de certa forma realizou o sonho de Radamés: ao fim da faculdade de música da USP conseguiu uma bolsa para estudar composição e regência em Paris por dois anos. Já está por lá há 30 e tornou-se importante compositor e regente de música clássica contemporânea, dedicado a pesquisas de novas texturas, novos procedimentos e sons, formações orquestrais variadas, música pura e abstrata, mas sem nunca deixar de compor canções. (Mas é aí que o espelho começa a se fragmentar, na verdade, nascido em 1967, educado musicalmente em conservatórios do interior de São Paulo na época de ouro da MPB, o sonho de Maury era ir para o Rio ser arranjador de música popular, como Radamés, como Cristóvão Bastos…).

Cristóvão, criado no subúrbio carioca de Marechal Hermes, estudou música clássica desde criança e se recorda de ser reprimido – e de se rebelar – por um professor de piano na escola católica, insatisfeito com seus arroubos criativos, mas avançados, e muitas vezes fora dos procedimentos clássicos. Tornou-se, com sua sólida formação (e rebeldia), um dos mais importantes arranjadores da música popular brasileira, pianista virtuose de estilo pessoal e um prolífico compositor de canções de sucesso como “Todo sentimento”, “Resposta ao tempo” e até o estranho lundu ternário “Tua cantiga”, em parceria com Chico Buarque, e que Pestana, sei lá, acho que assinaria.

Bastidores da gravação do Álbum Espelho de Maury Buchala e Cristóvão Bastos.

Em 2010, Maury foi ao festival de Ourinhos, no interior de São Paulo, encontrar um regente, quando andando pelos corredores ouviu atrás de uma porta o som de um piano com harmonizações inusitadas, improvisos criativos e diferentes. Abriu a porta e era Cristóvão em uma de suas oficinas de música. Conheceram-se, trocaram ideias e músicas e era como se mirassem no espelho, um espelho todo fragmentado com pedaços da história da canção brasileira de compositores pianistas. Nasceu o desejo de fazer algo juntos, o que resulta agora neste imenso “Espelho”, não propriamente uma parceria, mas o espelhamento dos pianos, dos arranjos e das canções de um e de outro, bem “brasileiras” nos ritmos e inspirações, camerísticas na forma, mas que se unem nos músicos sempre os mesmos e nos cantores solistas – não por acaso cantores populares de vozes perfeitas e educadas: Áurea Martins, Leila Pinheiro, Mariana Baltar e Renato Braz.

O espírito que paira neste trabalho inusitado, e de certa forma também um outro espelho de “Espelho”, é o de Tom Jobim e sua linha de canções camerísticas, como nos LPs “Canção do amor demais” (tendo a “popular” Eliseth Cardoso como solista) e “Por toda minha vida” (com a “lírica” Lenita Bruno como cantora). 

A valsa “Luciana”, de Maury, é o elo natural com o universo jobiniano, já que é homônima de uma valsa de Tom e Vinicius, mas ganha contornos próprios com suas alterações rítmicas, virando quase uma “falsa” valsa, não fosse escrita por um inquieto compositor de música contemporânea. Cantada por Leila Pinheiro, e localizada no miolo do disco, ela é “espelhada” com a composição de Cristóvão “Poranduba”, também ligada ao universo das canções de Jobim só que da linha “ecológica” (com diversas e sutis citações a esse universo, do desenho do violoncelo aos sopros no final) e cantada por Leila. Vindo de extremos teoricamente opostos, os dois compositores (e arranjadores) se encontram a ponto de, aí, um ver o outro no espelho.

As canções de Maury, contudo, guardam de forma muito evidente sua origem na música contemporânea. “Imagens”, uma valsa francesa ambientada aliás em Paris, talvez seja o melhor exemplo de síntese dos universos popular e clássico, com suas dissonâncias, sua forma desconstruída, o arranjo do quarteto de cordas e até algo de free jazz na execução do baixo e da bateria. Também cantado por Renato Braz, o “Baião” é cheio de sutilezas, chega a lembrar Villa-Lobos no uso de temas populares infantis e na segunda parte mais dramática, mas tem procedimentos típicos da música contemporânea, como as mudanças de arcos nas cordas. Já a pureza e a precisão do canto – popular – de Mariana Baltar reforçam a fluência e o caráter lúdico de peças como “Carrosséis” e “Choreando”, que nem por isso renegam sua origem, escritas por um compositor que parte de uma matriz “erudita”, sobretudo na escrita do arranjo e na execução do piano.

Cristóvão vem no caminho oposto, traz sua forma “popular” de compor para o universo camerístico proposto pelo disco. Como as de Maury, suas composições partem de gêneros populares, mas são apresentadas também nesse formato. “Virou ciranda” e “A voz do samba”, ambas com letras de seu parceiro mais novo, Roberto Didio, são verdadeiros tratados em música e poesia sobre os gêneros que abordam, chegam ao sublime simbolizadas pela excelência vocal de suas intérpretes, Leila Pinheiro e Áurea Martins, que também interpreta “Rede branca”, canção grandiosa feita por Cristóvão com seu mais constante e antigo parceiro, Paulo César Pinheiro.

Do universo caipira, com direito à viola de João Lyra, “Santo forte” encontra a precisão clássica do canto de Renato Braz que, como aliás “Poranduba”, tem surpreendente letra de Roque Ferreira, imenso compositor do Recôncavo Baiano muito mais conhecido por seus sambas e sambas-de-roda do que pelas letras “eruditas” feitas para as canções de Cristóvão, num procedimento tão afeito a este disco.

Denso como peças eruditas, fluente como canções populares, neste “Espelho”, quando Cristóvão e Maury se olham eles não veem apenas um ao outro, veem uma coisa chamada canção brasileira, fonte perene, pura vida, graça, novidade escorrendo da alma dos compositores, como queriam Radamés e Tom. E o Pestana, do Machado, sonhava sem saber.

Hugo Sukman
Jornalista

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