A Magia da Masterização

Todas as manhãs, durante a minha corrida, vejo pessoas correndo e caminhando com seus fones de ouvido, animadas e cheias de energia. Fico imaginando que alguma delas pode estar ouvindo, naquele momento, algo que masterizei. O que será que elas estão sentido naquele momento? Empolgação? Ansiedade? Conforto? Ou seria apenas um ritmo para tornar o exercício mais agradável? Penso que o meu trabalho com masterização está ali provocando sentimentos e isso me deixa animado e feliz por ter a oportunidade de fazer parte da vida das pessoas levando alegria através da música.

As canções sempre despertam várias emoções nos ouvintes através do ritmo, da poesia da letra, das frequências, de certa forma elas sempre contam uma história.

Os engenheiros de masterização têm a oportunidade de auxiliar um artista a contar esta história e transmitir para o ouvinte a emoção que sentiu no momento da criação da canção. Mas como é possível fazer isto na master? A música já não deveria estar praticamente pronta na etapa da master? Masterizar não é equalizar, comprimir e melhorar o som de uma música?

A masterização é tudo isto, sim. É através deste processo que podemos trazer para o primeiro plano as frequências que as pessoas associam a certas emoções ou a certas atmosferas. Certas frequências podem transmitir mais agressividade ou energia como os médios agudos das guitarras distorcidas em um rock. Outras podem evocar profundidade e relaxamento, como subgraves e frequências muito altas em uma canção de relaxamento. É a psicologia combinada com a técnica.

Durante o processo de masterização escolho as frequências que vão valorizar as emoções que o artista deseja transmitir em sua obra e as torno mais audíveis. O objetivo de cada trabalho é traduzir isto para o ouvinte.

Existem casos em que o artista gostaria de valorizar em sua obra a atmosfera de intimidade e cumplicidade ao ponto de o ouvinte, com seus fones de ouvido ou em seu próprio espaço, sentir como se o vocalista estivesse ali cantando exclusivamente para ele e dividindo com ele sua intimidade. Um bom exemplo disto é a música “Chega de Saudade” do João Gilberto. A masterização é capaz de fazer esta mágica acontecer.

Os engenheiros de masterização na maioria da vezes trabalham sozinhos e preferem assim. O próprio artista, por muitas vezes, acaba se sentindo excluído desta etapa o que não deveria ocorrer. Para um bom resultado na master é essencial o envolvimento dos artistas e produtores, pois o objetivo é transmitir a emoção. O foco apenas no som e no “volume” não alcança o melhor resultado.

Sempre inicio uma master antes mesmo do artista ou produtor perceber. Tudo começa com uma boa conversa a respeito da obra, do seu processo de criação, gravação e mixagem, onde o importante é identificar a emoção. Esta é a parte essencial do que faço. Apenas discutindo e desenvolvendo o conceito durante o processo de masterização é possível extrair o máximo de uma canção e de uma obra.

Ao masterizar um projeto tenho que ter a certeza de que os ouvintes podem ouvir todas as freqüências que provocarão as emoções que o artista quer transmitir, não só sonoramente, mas conceitualmente e emocionalmente. Mesmo aquele que não possui ouvidos treinados e, muitas vezes, sequer tem consciência da intenção do artista, deve ser capaz de sentir a emoção. É assim que a master ajuda o artista a contar a sua história e, para mim, esta é a mágica da Masterização.

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