Remasterizando o álbum “Tecnicolor” dos Mutantes

Remasterizando o álbum “Tecnicolor” dos Mutantes

Em uma tarde cinzenta e fria em julho de 1999, eu estava na Cia de áudio, masterizando um CD quando o Ricardo Franja, meu sócio na época e a Lucinha , esposa do Arnaldo Baptista entram no estúdio entusiasmados com um velho tape analógico nas mãos , tape esse que ficara esquecido anos com o Antonio Peticov , empresário dos Mutantes na época em que o álbum Tecnicolor foi gravado.

Eu sem nada entender, peguei esse tape e coloquei na maquina Studer A-80 e toquei a primeira música e parei imediatamente quando percebei o que tinha naquele velho tape. Tirei o tape, coloquei o tape padrão de alinhamento em 7 ½ na máquina Studer A-80 e comecei a alinhá-la meticulosamente. Depois, ajustei o conversor AD da Manley e abri uma sessão no Sonic Solutions em 24 Bits 44.1K.

Carreguei novamente a Studer A-80 com o velho tape, coloquei uma luva e coloquei um pouco de talco e com um algodão comecei a limpá-lo com muito cuidado.

Após algumas horas, coloquei o Sonic Solutions para gravar certo de que teria apenas uma única e valiosa chance para isso e comecei a tocar a fita. Durante a transcrição, conforme a fita foi tocando, alguns pedaços do tape foram ficando pelo caminho, mas no fim, o tape tocou inteiro perfeitamente.

Refeito do impacto inicial, eu avaliei os efeitos perversos do tempo e da péssima conservação do tape. Vários drop-outs (Buracos no áudio), quedas de canal, chiados e distorções. O trabalho seria imenso e desafiador, mas pensei, isso aqui é demais, merece o meu máximo e mais um pouco esse projeto.

O álbum tecnicolor continha versões de várias músicas já gravadas anteriormente pelo grupo em outras línguas, além de mais algumas regravações em seus idiomas originais. O álbum foi cantado em inglês, francês, espanhol e português. Todas as músicas receberam uma nova roupagem. O álbum foi gravado no final de 1970 em Paris (durante a segunda visita dos Mutantes a França) no Des Dames Studio e mixado em Londres em Stereo por Karl Homes.

A Polydor britânica achou que o álbum não seria bem sucedido devido ao excesso de idiomas diferentes e engavetou o projeto, mas o Antonio Petikov acabou ficando com uma copia em um tape analógico em 7 ½ do album da mixagem em stereo.

Em 1995, o escritor Carlos Calado, produzindo uma biografia do grupo, descobriu essas gravações e resolveu tomar partido do lançamento desse álbum. Calado não teve sucesso e apenas em 1999, o produtor Marcelo Fróes conseguiu convencer a gravadora Universal a lançar o disco.

Semanas depois, Marcelo Fróes veio a Cia de áudio com uma cópia do álbum já transcrita em CD, mas quando eu ouvi o CD, percebi que o áudio estava em môno e quando ele ouviu a nossa transcrição não sabia o que dizer.

Era hora de começar a remasterização. O Arnaldo Baptista me ligou e me disse que gostaria de ir ate a Cia de áudio e ouvir o material comigo.

Passamos uma tarde ouvindo o material e eu mostrei a ele as ferramentas que eu iria utilizar como o Sonic solutions No Noise e o Cedar. Fiz vários testes e após ele aprovar e aproveitou, entre um café e outro, e me contou tudo sobre as gravações.

A Primeira e mais difícil etapa , foi corrigir os drop-outs Eu utilizei o Sonic Manual DeClick e restaurei os “buracos” nas formas de onda em todas as musicas. Levei 5 dias para fazer isso. O Sonic Manual DeClick, utiliza um processamento através de interpolação. Se voce tem um código binário 00 01 00 , um” buraco” e depois 00 01 00 , ele reconstrói esse buraco com 00 01 00 com base no que vem antes e depois do buraco. Claro que é bem mais complexo do que isso, mas o principio é esse. Me lembro do Final da musica “I’m Sorry Baby”, que estava simplesmente inaudível. Eu recontruí a forma de onda manualmente com a caneta digital, até ficar totalmente recuperado.

Durante duas semanas, utilizando o Sonic Broadband DeNoise, peguei varias amostras de chiado durante as músicas e intervalos entre elas e criei vários set-ups do Sonic Broadband DeNoise para a redução de chiados e eu ia aplicando trecho a trecho para eliminar apenas o chiado sem prejudicar o audio original. A música tecnicolor, (exemplo abaixo do antes e depois do DeNoise ) , foi a que mais deu trabalho, pois houve 6 trechos com chiados diferentes. Foram horas e horas de trabalho, centenas de tentativas até ficar do jeito que eu queria.

O Proximo passo foi eliminar algumas distorções e fiz isso através do Cedar Decrakler CR-1. O Cedar era disparado o melhor sistema de restauração já criado e o mais interessante é que o processamento era feito em tempo real, ou seja, dava para ouvir o resultado e caso precisasse, parava, voltava, reajustava e continuava do ponto onde parou.

Depois de mais de um mês restaurando o áudio, veio a parte mais legal do processo, a masterização do áudio já restaurado. Foi a parte mais fácil. Fiz 5 versões mais e menos processadas e acabei escolhendo a menos processada e recebi muitas criticas por isso, pois muitas pessoas queriam um áudio bem processado, mais atual, o que eu discordei e não me arrependo, pois sei que foi a melhor escolha, pois preservou e muito o áudio original.

No processo de masterização, primeiro, eu montei uma sessão em um Digidesign Sound Designer II ( Programa de 4 canais que depois virou o Pro-tools) com os áudios digitais restaurados. Usando um conversor da Apogee DA 1000, converti os áudio de digital para analógico e trabalhei música a música passando pelos equalizadores Válvulados Pultecs EQP-1 A e EQM e o compressor válvulado Variable-Mu da Manley. Em seguida, usando um conversor AD Manley , converti o áudio analógico novamente para o digital e gravei o no Sonic Solutions , onde eu fiz a edição final do CD.

Foram 3 meses de trabalho intenso, centenas de horas , dezenas de CDs referências , ouvidos e analizados por todas as pessoas envolvidas até chegar ao resultado final. Todas essas opções, foram registradas e eu arquivei todas essas etapas e guardo tudo isso até hoje. Foi o trabalho de remasterização mais difícil e ao mesmo tempo mais importante que eu fiz em minha carreira.

“Technicolor” Antes do NoNoise

“Technicolor” Depois do NoNoise

A ilustração e a caligrafia do projeto gráfico do álbum é de autoria de Sean Lennon (filho de John Lennon e Yoko Ono).

A Masterização Atual no Mundo Globalizado.

É impossível falar de globalização sem falar da internet que, a cada minuto, nos proporciona uma viagem sem sair do lugar. Dentro da rede conhecemos novas culturas, podemos fazer novas amizades com pessoas que moram a horas de distância e cada vez mais, a partir dela, podemos trabalhar com artistas, eng. de mixagem e masterização e produções de toda parte do mundo..

Antes da internet, masterizar um projeto em outro País era uma aventura muito cara e demorada e caso você não pudesse pegar um avião para acompanhar o processo levando em baixo dos braços as suas músicas finalizadas em mídias físicas, como os tapes analógicos de 1/2 polegada ou DATs, era necessário enviar esse material por Fedex e receber uma prova da Master em CD também por Fedex e isso levava tempo com um alto custo.

Esse processo começou a mudar no inicio dos anos 2000, com o aumento significativo da velocidade das bandas largas de conexão, que permitiu o envio e recebimento das mixagens on line, que passaram a ser em arquivo digital (WAV 44/48/96K 16.24Bits), formato esse que substituiu os tapes analógicos e os DATS.

A Stering Sound, estúdio de masterização localizado em Nova York, uma das pioneiras nesse novo mercado, percebeu que poderia atender artistas do mundo todo e desenvolveu e aperfeiçou o sistema de eMaster assim como o Estudio Abbey Road em Londres, usando o seu STAFF técnico e sua ampla discografia para atrair clientes do mundo inteiro.

Os anos foram passando e muitos profissionais de masterização seguiram a Sterling montando os seus proprios estúdios de masterização e passaram a oferecer os seus serviços online a um preço acessível com rapidez e chegamos ao momento atual.

Masterizar o seu projeto com o eng. que masterizou o disco da sua banda preferida se ficou viável, e essa é a parte mais legal do mercado de masterização globalizado, a escolha do engenheiro de masterização especializado em um determinado estilo, independente do local que ele está.

O produtor do Ivan Lins, Marco Britto, fez um projeto de música eletrônica e encontrou um especialista nesse estilo, o engenheiro de Masterização Luca Petrolessi, localizado em Las Vegas.

No caminho inverso, o produtor americano especializado em salsa Richie Perez, resolveu masterizar aqui no Brasil na Classic Master em São Paulo, um projeto de salsa, pois queria um som mais brasileiro próximo ao Samba Rock.

Isso mostra bem como há espaço para todos os profissionais, desde que tenham um perfil diferenciado, um estilo bem definido e um sistema de atendimento on line, que possa atrair clientes de qualquer parte do mundo.

Um outro aspecto do mercado online de masterização, é o que aconteceu com o eng. de masterização Vlado Meller (Placebo, Red Hot Chilli Peppers). Ele resolveu deixar a cidade de Nova York, local do estúdio de Masterização da Sony onde trabalhou por 38 anos e montar seu estúdio pessoal em Charleston, uma pequena e tranquila cidade americana para ficar mais perto da sua familia. (sua filha foi cursar a faculdade nesta cidade) ou seja, você pode morar em qualquer lugar e continuar oferecendo o seu trabalho a seus clientes.

Como estamos falando do mundo globalizado, eu convidei vários artistas, produtores e e engenheiros de mixagem de vários lugares do mundo para participar virtualmente dando o seu depoimento e contando como eles escolheram os seus eng. de masterização para finalizar o seu projeto.

Eles estão todos aqui:

https://www.youtube.com/playlist?lis…NLt0j-JGFX3vFi

O mundo globalizado de masterização esta solidificado e é altamente competitivo, tanto em preço quanto em qualidade dos profissionais de masterização, porém com milhares de clientes espalhados pelo mundo, buscar o eng. ideal para finalizar o seu projeto ficou bem mais fácil.